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Homem de verdade

Luis Fernando Verissimo

Gregório acabou não votando no domingo passado. Iria votar Não, tinha certeza que o Não ganharia, mas resolveu se precaver. Perguntou para a mulher, Marilda:

- Cadê minha pistola?

- Que pistola?

- A pistola que eu tenho em casa. Vou esconder, caso der o Sim.

- Eu não sabia que você tinha uma pistola em casa.

- Tenho. Para nos defender num assalto.

- Por que você não usou a pistola nas duas vezes em que nós fomos assaltados, este mês?

- Aí é que está. Eu não me lembrava onde tinha escondido. Você sabe onde ela está?

- Eu nem sabia que ela existia!


Gregório procurou a pistola por toda a casa. A Marilda atrás. Marilda fazendo perguntas.

- O que você vai fazer com ela, quando encontrar?

- Vou esconder. A minha pistola eles não levam.

- Mas Greg, se é para esconder, por que não deixar no lugar onde ela já está, que nem você consegue encontrar?

Gregório desconfiou da lógica da mulher. Ela normalmente não era lógica. Só podia estar sendo lógica para enganá-lo.

- Por quê? Porque eu acho que você encontrou a minha pistola e escondeu. Por isso.

- Eu, Greg?! Mas eu nem sabia que você tinha pistola!

- Por isso mesmo. Encontrou a pistola, levou um susto, pensou "ele não é do tipo que sabe lidar com armas", e escondeu em outro lugar. Ou jogou fora.

- Eu, Greg?!

- Aliás, você sempre me considerou um fraco, não é Marilda? Você nunca me imaginou com uma arma na mão. Como um homem de verdade. É ou não é?

- Mas Greg...

- Não pensa que eu esqueci o que você disse quando viu o Otávio com a Uzi dele. "Uau!" Nem tinha bala no pente e você: "Uau" Era brincadeira, Greg. E faz dez anos!


Gregório segurou Marilda pelos braços e a sacudiu.

- Onde está a minha pistola, Marilda?

- Eu nunca vi a sua pistola, Greg. Está no lugar onde você escondeu.

- Marilda, pela última vez. O que você fez com a minha...

- Está bem, está bem! Está dentro do armário, na caixa com a minha coleção de ursinhos, aquela que você tem nojo. Deixa ela lá, Greg!

Mas Gregório foi buscar a pistola. Marilda foi atrás. Gregório pescou a pistola de dentro da caixa dos ursinhos, apesar da repugnância. Marilda tentou arrancá-la da sua mão.

- Greg, você não é do tipo que sabe lidar com armas... Deixa eu jogar essa pistola fora.

- Larga a pistola, Marilda. Olha que ela está carregada. Larga!

- Me dá ela aqui, Greg!

- Marilda! Não puxa, senão...


Gregório não pôde votar no referendo. Morreu a caminho do hospital. Mas o seu Não não fez falta.


Domingo, 30 de outubro de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.